sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Coisa pra inglês ver

 "Coisa pra inglês ver"


Após séculos sem ir ao cinema, finalmente retornei para assistir ao filme "Ainda estou aqui"  de Walter Salles. No final dos anos sessenta, voltamos a Pernambuco, eu, minha mãe e meu irmão e os problemas pelos quais passamos para sobreviver são as lembranças que ainda tenho. Mas a partir dos anos setenta, hoje relembro o que via e vivia sem que entendesse, à época. 

        Na escola cantavamos o hino antes do início das aulas, enquanto a bandeira era hasteada e na saída, no pátio, em filas cantavamos outros hinos, enquanto a bandeira era derreada. Hino nacional, da Independência, do sesquicentenário da independência, Hino da Bandeira, da Proclamação da República sem sabermos o que era o labaro, embora estivesse ali na nossa cara. 

        Não era só nas repartições públicas, mas até no açougue havia a foto do Presidente da República, segundo as músicas e os hinos moravamos em um país maravilhoso que ia pra frente, onde o céu era mais estrelado, abençoado por Deus e bonito por natureza. 

        Como não amar esse país que nos empurravam goela abaixo, exigindo que não fugissemos a luta nem temessemos apropria morte? 

        Aos poucos fui percebendo que moravamos numa região pobre e seca e que colocar comida nos pratos era a luta desesperada dos filhos deste solo e mãe gentil, que mandava cada dia mais os seus filhos para o Sul do país, que se quisessem sobreviver, teriam que ser explorados em outras margens placidas... 

          Os jovens dos dias atuais, talvez não possam mesmo entender porque o filme nos toca em lembranças adormecidas, em pontos misteriosos e sombrios de nossa formação atavica. O exílio deles é concedido diariamente, na fuga da realidade proporcionada por algoritmos , likes, curtidas e comunidades virtuais. 

        Quanto ao filme, a atuação de Fernanda Torres realmente é o melhor e poderia nos cicatrizar da injustiça cometida na Central do Brasil, mas tudo isso é coisa pra inglês ver... 

(Marcos Zacarias)

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Janelas

 Tenho uma janela que me permite ver a cidade a crescer para cima...No fim da tarde, vejo as pessoas que não têm e algumas que possuem janelas que não mostram a cidade, só paredes e ou então estreitos corredores. Há muitas belezas a serem vistas através da minha janela, desde que lágrimas não apareçam como cortinas... Pela janela passam os sonhos, as dores e amores, passam a vida e os automóveis, o tempo e a labuta, a solidão e a promessa, a vida e a morte de todos que a ultrapassaram...Pela janela vejo os cotovelos de minha avó marcados pela janela em que ela se apoiava para ver a vida no fim da tarde. Mas o trajeto do avião preparando a tripulação para o pouso é o ápice da beleza vista pela minha janela... É a lição de partir de Bandeira, que de sua janela via o aeroporto e as naves...pela minha janela vejo o morrer dos dias, o nascer das noites, vejo o início, o fim prosaico e o poético das vidas dos que lutam para ter uma janela qualquer...

A primeira cama

 O primeiro assalto em Sampa, a primeira cama, os primeiros encantos e ou desencantos na nova cidade, a magreza rodeada de cabelos negros ... Tudo junto e misturado de repente, enquanto cruzo a São Luís e a av Ipiranga... Tudo tão distante de mim que já não sou eu mais e nem existem por perto os que me diziam, de um modo torto, sobre o torto que era eu..."Todos dormem profundamente", como diz Bandeira...Ah, uma quermesse, a visão de São Miguel Arcanjo...Tudo que eu vejo em Sampa , não existe na realidade... Que mundo é esse? O Pantanal em fogo, Caruaru na chuva, a Direita ameaçando a vida e anunciando o armagedom  no mundo e neste quintal dos Estados desunidos, Sampa sem frio ou névoa, é o tempo seco e quente, asfixiando os condenados a manipulação...Quem dera a vida se resumisse numa crença qualquer ou então pudéssemos esquecer tudo no forró...valei-nos São Miguel Arcanjo, decepa, ao menos, a cabeça do inelegível...

sexta-feira, 14 de julho de 2023

 MEDIDAS PROFILÁTICAS


Confesso Senhores, hoje acordei, tomei meu café matinal, sentei-me no sofá, fiz cruzadas, li um capítulo de um livro, li uma crônica de outro, voltei as cruzadas e confesso - não liguei a TV, tampouco gastei muito tempo nas redes sociais, estive off-line por um tempo absurdo. 

Sim, é verdade, não me senti culpado por não aderir ao desespero diário de ocupar-me com atividades, que me deixassem estressado, como se espera de um cidadão comum, contemporâneo. 

Creiam, não me senti atrasado, nem me importei com mil coisas que eu deveria fazer, como todos os dias, todos nós nos preocupamos. 

Aliás, as mil coisas que deveriam ser feitas, não tinham urgência alguma, somente a necessidade de me manter estressado, frustrado , com a sensação de que não conseguiria fazer tudo que havia por fazer. 

Em verdade mesmo, toda essa afronta que hoje se revela vem explicar que foram medidas  profilaticas contra a ansiedade que ontem aqui se instalou, ignorando o recesso das atividades ditas trabalhistas.

 Certa vez, perguntaram ao filósofo *Gilles Deleuze* por qual razão ele nunca foi filiado a um partido, e aproveitaram  também para  indagá-lo  acerca do que é ser de esquerda.


O filósofo deu mais ou menos a seguinte resposta: antes de ser um posicionamento político-partidário, ser de esquerda expressa o modo como nos inserimos na existência.


A pessoa de direita parte, antes de tudo, do seu ego. Ela  vive no interior de um círculo no qual estão seus interesses, suas propriedades (já  possuídas ou apenas desejadas), suas ambições, suas pretensões, suas opiniões... Mas também ocupam o círculo estreito do ego seus medos, seus ressentimentos , seus fantasmas, suas feridas mal curadas...


O homem de direita imagina que esse círculo estreito é o centro do mundo, de tal modo que tudo o que existe fora desse círculo, no espaço e no tempo, é para ele só “narrativa”. Daí seu desprezo pela ciência, pela história, pela sociologia e pela filosofia, e seu medo paranoico dos outros povos e suas maneiras diferentes de viver, medo esse traduzido na expressão “globalismo comunista”.


Pode parecer paradoxal, mas apenas seres que vivem num círculo existencial estreito adaptam-se a existirem  no interior de um rebanho ou massa. Pois rebanho não é um conjunto heterogêneo de singularidades, rebanho são indivíduos aprisionados a si mesmos e que se agregam em celas contíguas.


Ser existencialmente de esquerda, ao contrário, é partir daquilo que Espinosa chama de o Absolutamente Infinito. A percepção de esquerda se abre ao que não pode ser cercado ou contido, para   que a mente e o coração ligados a tal percepção permaneçam sempre abertos.


É a partir do infinito aberto que o ser existencialmente de esquerda  compreende que desse infinito  fazem parte o cosmos, o nosso planeta, as outras nações, o nosso país, a nossa cidade, o nosso bairro , o outro e, enfim, a sua pessoa.


Ser de esquerda é não se colocar como primeiro ou último numa concorrência, mas como parte singular  de realidades mais amplas e horizontadas (como ensina também  Manoel de Barros).


Ser de esquerda não é apenas compreender teoricamente isso, mas sobretudo agir a partir dessa percepção. E dessa percepção podem nascer  não apenas ações empáticas, solidárias, generosas , dignas , justas , corajosas e revolucionárias, pois dessa percepção também podem nascer poemas, músicas , artes e educação não menos revolucionárias.


https://multitudopoesiaartefilosofia.blogspot.com/2023/03/esquerda-e-direita.html?m=1