"Coisa pra inglês ver"
Após séculos sem ir ao cinema, finalmente retornei para assistir ao filme "Ainda estou aqui" de Walter Salles. No final dos anos sessenta, voltamos a Pernambuco, eu, minha mãe e meu irmão e os problemas pelos quais passamos para sobreviver são as lembranças que ainda tenho. Mas a partir dos anos setenta, hoje relembro o que via e vivia sem que entendesse, à época.
Na escola cantavamos o hino antes do início das aulas, enquanto a bandeira era hasteada e na saída, no pátio, em filas cantavamos outros hinos, enquanto a bandeira era derreada. Hino nacional, da Independência, do sesquicentenário da independência, Hino da Bandeira, da Proclamação da República sem sabermos o que era o labaro, embora estivesse ali na nossa cara.
Não era só nas repartições públicas, mas até no açougue havia a foto do Presidente da República, segundo as músicas e os hinos moravamos em um país maravilhoso que ia pra frente, onde o céu era mais estrelado, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Como não amar esse país que nos empurravam goela abaixo, exigindo que não fugissemos a luta nem temessemos apropria morte?
Aos poucos fui percebendo que moravamos numa região pobre e seca e que colocar comida nos pratos era a luta desesperada dos filhos deste solo e mãe gentil, que mandava cada dia mais os seus filhos para o Sul do país, que se quisessem sobreviver, teriam que ser explorados em outras margens placidas...
Os jovens dos dias atuais, talvez não possam mesmo entender porque o filme nos toca em lembranças adormecidas, em pontos misteriosos e sombrios de nossa formação atavica. O exílio deles é concedido diariamente, na fuga da realidade proporcionada por algoritmos , likes, curtidas e comunidades virtuais.
Quanto ao filme, a atuação de Fernanda Torres realmente é o melhor e poderia nos cicatrizar da injustiça cometida na Central do Brasil, mas tudo isso é coisa pra inglês ver...
(Marcos Zacarias)