sexta-feira, 14 de julho de 2023

 MEDIDAS PROFILÁTICAS


Confesso Senhores, hoje acordei, tomei meu café matinal, sentei-me no sofá, fiz cruzadas, li um capítulo de um livro, li uma crônica de outro, voltei as cruzadas e confesso - não liguei a TV, tampouco gastei muito tempo nas redes sociais, estive off-line por um tempo absurdo. 

Sim, é verdade, não me senti culpado por não aderir ao desespero diário de ocupar-me com atividades, que me deixassem estressado, como se espera de um cidadão comum, contemporâneo. 

Creiam, não me senti atrasado, nem me importei com mil coisas que eu deveria fazer, como todos os dias, todos nós nos preocupamos. 

Aliás, as mil coisas que deveriam ser feitas, não tinham urgência alguma, somente a necessidade de me manter estressado, frustrado , com a sensação de que não conseguiria fazer tudo que havia por fazer. 

Em verdade mesmo, toda essa afronta que hoje se revela vem explicar que foram medidas  profilaticas contra a ansiedade que ontem aqui se instalou, ignorando o recesso das atividades ditas trabalhistas.

 Certa vez, perguntaram ao filósofo *Gilles Deleuze* por qual razão ele nunca foi filiado a um partido, e aproveitaram  também para  indagá-lo  acerca do que é ser de esquerda.


O filósofo deu mais ou menos a seguinte resposta: antes de ser um posicionamento político-partidário, ser de esquerda expressa o modo como nos inserimos na existência.


A pessoa de direita parte, antes de tudo, do seu ego. Ela  vive no interior de um círculo no qual estão seus interesses, suas propriedades (já  possuídas ou apenas desejadas), suas ambições, suas pretensões, suas opiniões... Mas também ocupam o círculo estreito do ego seus medos, seus ressentimentos , seus fantasmas, suas feridas mal curadas...


O homem de direita imagina que esse círculo estreito é o centro do mundo, de tal modo que tudo o que existe fora desse círculo, no espaço e no tempo, é para ele só “narrativa”. Daí seu desprezo pela ciência, pela história, pela sociologia e pela filosofia, e seu medo paranoico dos outros povos e suas maneiras diferentes de viver, medo esse traduzido na expressão “globalismo comunista”.


Pode parecer paradoxal, mas apenas seres que vivem num círculo existencial estreito adaptam-se a existirem  no interior de um rebanho ou massa. Pois rebanho não é um conjunto heterogêneo de singularidades, rebanho são indivíduos aprisionados a si mesmos e que se agregam em celas contíguas.


Ser existencialmente de esquerda, ao contrário, é partir daquilo que Espinosa chama de o Absolutamente Infinito. A percepção de esquerda se abre ao que não pode ser cercado ou contido, para   que a mente e o coração ligados a tal percepção permaneçam sempre abertos.


É a partir do infinito aberto que o ser existencialmente de esquerda  compreende que desse infinito  fazem parte o cosmos, o nosso planeta, as outras nações, o nosso país, a nossa cidade, o nosso bairro , o outro e, enfim, a sua pessoa.


Ser de esquerda é não se colocar como primeiro ou último numa concorrência, mas como parte singular  de realidades mais amplas e horizontadas (como ensina também  Manoel de Barros).


Ser de esquerda não é apenas compreender teoricamente isso, mas sobretudo agir a partir dessa percepção. E dessa percepção podem nascer  não apenas ações empáticas, solidárias, generosas , dignas , justas , corajosas e revolucionárias, pois dessa percepção também podem nascer poemas, músicas , artes e educação não menos revolucionárias.


https://multitudopoesiaartefilosofia.blogspot.com/2023/03/esquerda-e-direita.html?m=1