PASOLINI
Cercam-me as vidraças baças
através delas os homens passam
lá fora, no vapor da hora.
Assim me protejo de quem monitora
e exige que eu pertença à raça
à espécie à fauna à flora.
Mas qual bicho sou acuado
sem matilha bando amuado
esperando a morte sentado
sobre o tratado científico
filosófico eclesiástico.
Uma vez gritei que o mundo
não é livre.
Levaram- me à praia
e sobre meu corpo os carros
pisotearam- me como perigo.
Outras vezes que eu disse:
Se Deus não existisse
Se o desejo não fosse heterossexual
Se vocês não permitissem...
Atiraram- me pedras e meu corpo
na praia fora destroçado
pelos brancos varões abastados.
Antes das vidraças, na praça,
gritei que as formas de poder
não ponderam sobre ser,
somos representados por economistas
sem políticas e humanidade
Enfureci os cães desassosseguei
as mães, irmãos negaram- me as mãos
e agora vejo pelas vidraças baças a vida
lá fora.
