Ode ao homem
Recuso o leite quente matinal
teu atarantado movimento na cozinha
teu olhar tentando aquietar as crianças
carentes acordadas no amor familiar
nego ao meu filho o afago
pois tenho nas mãos um punhal
Envelhecemos enquanto crescem os filhos
da vida em comum matrimonial
sorris satisfeita na ordem posta
em nossa existência, mas chora
o menino e deito o punhal, não é hora,
seja homem como eu, animal.
Tu dizes que se olharmos pela janela
veremos que não há proteção
atropelos perseguem os passantes
porém para nós paira a paz
em suspiros e dedicação
Seria assim se eu tivesse nascido
sem viseira nos olhos
e peito aberto ao amor vão
aberto ao punhal de sua mão
No asfalto corre meu sangue
foram meus ossos pisoteados
temi a fúria revelada na fúria
desse homem casado e cotidiano
matando-me a socos e pontapés
Com um olho vejo meu outro olho
que olha para mim do meio da rua
entendo agora que ele nunca amou
seus pais sua esposa seus filhos
ele é bem pior e infeliz que eu mesmo
pois finge amar a vida que eu nunca amei
a vida dele com sua família
a paz em suspiros que eu recusei.
